domingo, 27 de setembro de 2026

O ASSASSINATO DA FAMÍLIA MARKLES

JOHN MARKLE: O FILHO DA VOZ DE PAZUZU QUE TRANSFORMOU UMA TRAGÉDIA FAMILIAR EM UM DOS CASOS MAIS SOMBRIOS DE LITTLE ROCK

Um crime real envolvendo dinheiro, uma família destruída, uma máscara encontrada na cena e uma ligação inesperada com uma das vozes mais assustadoras da história do cinema

⚠️ ATENÇÃO: esta matéria aborda assassinato de crianças, violência familiar e suicídio. O conteúdo é apresentado com finalidade documental e histórica, sem glamourizar o autor dos crimes.


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UMA HISTÓRIA QUE PARECE SAÍDA DE UM FILME DE TERROR

Existem crimes reais que chamam atenção pela brutalidade. Outros, pela personalidade do criminoso. E existem aqueles que parecem ter sido construídos por uma sucessão improvável de acontecimentos.

O caso de John Lawrence Markle, ocorrido em Little Rock, Arkansas, em novembro de 1987, reúne vários desses elementos.

Markle era filho único da atriz Mercedes McCambridge, vencedora do Oscar e conhecida mundialmente entre os fãs do terror por ter emprestado sua voz à entidade demoníaca Pazuzu em O Exorcista (1973).

Mas, fora das telas, a família McCambridge enfrentaria uma tragédia completamente real.

Na madrugada de 16 de novembro de 1987, John Markle matou sua esposa, Christine, de 45 anos, e suas duas filhas, Amy e Suzanne, antes de tirar a própria vida. A polícia encontrou documentos e uma carta deixados por ele, enquanto a investigação também examinava os problemas financeiros que haviam surgido pouco antes da tragédia. 

O caso ganhou ainda mais notoriedade porque Markle era um profissional respeitado do mercado financeiro, possuía doutorado em economia e trabalhava em uma importante empresa de investimentos de Little Rock.

E havia outro detalhe extremamente perturbador na cena: uma máscara de borracha com o rosto de um homem idoso foi encontrada próxima ao corpo de John Markle. Segundo a polícia, ele teria usado a máscara durante parte dos assassinatos. 


QUEM ERA JOHN MARKLE?

John Lawrence Fifield nasceu em 25 de dezembro de 1941, em Hollywood, Califórnia.

Sua mãe era Carlotta Mercedes Agnes McCambridge, que posteriormente se tornaria conhecida simplesmente como Mercedes McCambridge. Seu pai biológico era o escritor William Fifield.

Os pais se divorciaram quando John ainda era criança.

Em 1950, Mercedes se casou com o ator, produtor e diretor Fletcher Markle, que posteriormente adotou John. A partir daí, ele passou a utilizar o sobrenome Markle. 

John estudou na UCLA e obteve um doutorado em Economia. Mais tarde, construiu uma carreira no setor financeiro.

Em 1979, entrou para a empresa de investimentos Stephens Inc., em Little Rock, depois de ter trabalhado anteriormente na Salomon Brothers, em Nova York.

John rapidamente alcançou uma posição de destaque na empresa e trabalhava com operações financeiras e negociação de contratos futuros. 

À primeira vista, sua vida parecia muito distante do cenário que surgiria poucos anos depois.


O HOMEM POR TRÁS DA VIDA PROFISSIONAL

Um dos aspectos mais intrigantes do caso é justamente a diferença entre a imagem profissional de John Markle e o que aconteceria em novembro de 1987.

Ele não era um criminoso conhecido, nem alguém que havia se tornado famoso por violência anterior.

Era um homem com formação acadêmica, emprego em uma importante empresa financeira e uma família.

Por isso, quando a notícia chegou aos jornais, uma das primeiras perguntas feitas pelas autoridades foi justamente:

Por quê?

No primeiro momento, a polícia declarou que não conhecia a motivação para os assassinatos.

Entretanto, começaram a surgir informações sobre problemas financeiros relacionados ao trabalho de Markle. 

E seria justamente esse aspecto financeiro que ajudaria a explicar o que havia acontecido nas semanas anteriores.


O ESQUEMA FINANCEIRO QUE PRECEDEU A TRAGÉDIA

Mercedes McCambridge havia confiado ao filho uma quantia significativa de dinheiro para administrar.

De acordo com os registros posteriormente divulgados, ela havia colocado aproximadamente US$ 604 mil sob responsabilidade de John.

No decorrer de 1987, a Stephens Inc. descobriu que Markle havia criado uma conta secreta em nome de sua mãe.

As investigações apontaram que ele estava utilizando as contas de maneira irregular: operações lucrativas eram atribuídas à conta de Mercedes, enquanto determinadas perdas eram lançadas na conta da própria empresa.

Posteriormente, foi constatado que a assinatura de Mercedes havia sido falsificada para abertura da conta. 

A situação rapidamente se tornou insustentável.

Markle foi colocado em licença médica e posteriormente demitido.


A MADRUGADA DE 16 DE NOVEMBRO DE 1987

Na madrugada daquela segunda-feira, a residência da família Markle, em Little Rock, tornou-se uma cena de crime.

Segundo a polícia, John matou a esposa, Christine Markle, 45 anos, e as duas filhas:

  • Amy Markle, de 12 anos;

  • Suzanne Markle, de aproximadamente 8 ou 9 anos, conforme diferentes registros contemporâneos.

Depois, ele tirou a própria vida.

Os primeiros relatos policiais indicaram que os acontecimentos ocorreram durante a madrugada. A polícia chegou à residência depois de receber uma ligação relacionada a John. 

A casa, que até então representava o espaço privado de uma família, transformou-se em um dos locais mais conhecidos da investigação criminal de Little Rock daquele período.

O LOCAL DO CRIME

A investigação encontrou John no andar inferior da residência.

Sua esposa foi encontrada no quarto do casal, no terceiro andar, enquanto as duas meninas estavam no segundo andar. A descrição foi registrada pelo Los Angeles Times logo após os crimes.

A polícia passou então a reconstruir os acontecimentos dentro da casa.


A MÁSCARA QUE CHAMOU A ATENÇÃO DOS INVESTIGADORES


Entre os elementos mais perturbadores do caso estava uma máscara de borracha.

O Los Angeles Times informou, em novembro de 1987, que uma máscara com o rosto de um homem idoso havia sido encontrada próxima ao corpo de John.

O sargento Eddie Alexander, da polícia de Little Rock, declarou que Markle teria usado a máscara durante parte do ataque. 

Em dezembro daquele mesmo ano, registros da televisão local também registraram que a polícia dizia que Markle havia usado uma máscara de Halloween durante os assassinatos. 

O próprio The Coroner's Report, que posteriormente reuniu material do caso, informa que seu arquivo inclui documentos, artigos de jornal e fotografias relacionados à investigação. 


AS FOTOGRAFIAS DO LOCAL DO CRIME

Outro capítulo do caso envolve justamente as fotografias feitas pela polícia dentro da residência.

Os registros mostram que as imagens se tornaram objeto de uma disputa judicial.

A família tentou impedir que fotografias relacionadas ao crime fossem divulgadas.

Em dezembro de 1987, a Suprema Corte do Arkansas decidiu não liberar determinadas imagens, depois de uma batalha judicial envolvendo o acesso aos registros. O arquivo televisivo da Universidade do Arkansas registra várias reportagens daquele período sobre a decisão envolvendo as fotografias do caso Markle.


A CARTA DE JOHN MARKLE

Depois dos assassinatos, os investigadores encontraram uma carta destinada à mãe.

O documento se tornou uma das peças mais importantes para compreender os últimos acontecimentos da vida de John.

A carta falava sobre os problemas financeiros, sua situação profissional e sua relação com Mercedes.

O documento posteriormente divulgado tinha mais de dez páginas e continha informações sobre suas operações financeiras.

Mas é importante separar duas coisas:

a carta registra a versão e os sentimentos expressos pelo próprio John; ela não transforma automaticamente suas acusações pessoais em fatos comprovados.

Em relação às fraudes financeiras, entretanto, a carta foi clara ao assumir a responsabilidade pelas operações e inocentar sua mãe. 


MERCEDES McCAMBRIDGE NÃO ERA A RESPONSÁVEL PELO ESQUEMA

Esse é um detalhe extremamente importante para compreender o caso.

Nos primeiros relatos, existiam dúvidas sobre o envolvimento de Mercedes nas irregularidades financeiras.

Mas documentos posteriormente divulgados mostraram que John assumiu responsabilidade pelas operações fraudulentas e declarou que sua mãe não tinha conhecimento do esquema.

Em uma carta deixada para Mercedes, ele afirmou que ela era inocente e que ele era responsável pelas operações.

A Associated Press, em reportagem reproduzida pelo Los Angeles Times, informou que a carta exonerava Mercedes de qualquer participação nas fraudes. 

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E ONDE ENTRA MERCEDES McCAMBRIDGE?

É justamente aqui que o caso ganhou uma ligação incomum com a história do cinema.

Mercedes McCambridge já era uma atriz respeitada muito antes de O Exorcista.

Ela havia vencido o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por All the King's Men, de 1949, e também recebeu indicação ao Oscar por Giant, em 1956. 

Mas para uma geração de espectadores, sua voz ficaria eternamente associada a uma personagem muito diferente.

Pazuzu.


A VOZ DO DEMÔNIO EM O EXORCISTA

Em 1973, William Friedkin dirigiu The Exorcist, adaptação do romance de William Peter Blatty.

Mercedes McCambridge foi chamada para realizar a voz demoníaca associada à possessão de Regan.

O trabalho vocal se tornou uma das características mais marcantes do filme.

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Durante algum tempo, seu nome chegou a ficar fora dos créditos do filme, provocando uma disputa envolvendo a atriz, Friedkin e o estúdio.

Posteriormente, seu trabalho passou a ser devidamente reconhecido nos créditos. 

Mercedes McCambridge bebeu uísque durante as gravações de O Exorcista para ajudar a produzir aquela voz rouca e perturbadora de Pazuzu.

Ela própria relatou que usou uísque, cigarros e outros recursos para alterar a voz, embora algumas versões populares exagerem dizendo que ela passou a produção inteira embriagada. O que está documentado é que o álcool fazia parte do método que ela utilizou durante o trabalho vocal.

🎙️ CURIOSIDADE: O UÍSQUE POR TRÁS DA VOZ DE PAZUZU

Para criar a voz demoníaca de O Exorcista, Mercedes McCambridge recorreu a métodos pouco convencionais. A atriz fumava e bebia uísque durante as sessões de gravação, buscando deixar sua voz mais áspera, pesada e assustadora.

Ela chegou a explicar que o diretor William Friedkin precisava de uma voz que soasse como algo realmente diferente de uma voz humana comum. McCambridge então utilizou o próprio corpo como instrumento, modificando deliberadamente sua voz.

O resultado se tornou uma das vozes mais reconhecíveis do cinema de terror.

E existe uma curiosidade ainda mais interessante: McCambridge era uma atriz premiada, com uma carreira respeitada no cinema e no teatro. Para interpretar vocalmente uma entidade demoníaca, porém, ela acabou recorrendo a uísque, cigarros e técnicas físicas que nada tinham a ver com sua imagem tradicional de atriz de Hollywood.



UMA DAS IRONIAS MAIS SOMBRIAS DO CASO

A associação entre os dois acontecimentos é puramente circunstancial.

Não existe evidência de que o trabalho de Mercedes em O Exorcista tenha qualquer relação causal com os crimes de seu filho.

Ainda assim, a combinação dos fatos tornou o caso particularmente perturbador para o imaginário popular.

De um lado, uma atriz interpretando uma entidade demoníaca no cinema.

Do outro, anos depois, uma tragédia real envolvendo seu próprio filho.

O contraste entre ficção e realidade é justamente uma das razões pelas quais essa história continua despertando interesse.


A TRAGÉDIA QUE ATINGIU MERCEDES

Para Mercedes McCambridge, o episódio não foi apenas uma notícia de jornal.

Era seu único filho.

Depois da tragédia, sua vida pessoal passou a ser marcada por uma história familiar que dificilmente poderia ser separada de sua biografia pública.

Ela continuaria sendo lembrada por sua carreira no rádio, teatro, televisão e cinema, mas o assassinato de seu filho, nora e netas tornou-se uma das partes mais dolorosas de sua história.

Mercedes morreu em 2 de março de 2004.


A DISPUTA PELAS FOTOGRAFIAS DO CRIME

Outro capítulo pouco conhecido aconteceu depois do assassinato.

Alguns jornais de Little Rock solicitaram acesso às fotografias feitas pela polícia dentro da residência.

A família tentou impedir a divulgação.

Os arquivos televisivos da época registram repetidamente a disputa judicial envolvendo as fotografias do caso Markle. 

Esse episódio acabou se transformando em uma discussão sobre privacidade, registros policiais e direito de acesso à informação pública.

Assim, o assassinato não terminou simplesmente com a investigação criminal.

Ele também deixou um rastro nos tribunais.


O QUE ACONTECEU COM A CARTA?

A carta deixada por John Markle também se tornou objeto de disputa.

Mercedes tentou impedir que o conteúdo fosse divulgado publicamente.

Durante algum tempo, documentos e registros permaneceram sob restrições judiciais.

Em 1989, porém, a Justiça permitiu que documentos relacionados ao caso se tornassem públicos.

Foi então que o público pôde conhecer melhor o conteúdo da carta e outros registros relacionados à investigação. 


CURIOSIDADES SOBRE O CASO

1. JOHN TINHA OUTRO SOBRENOME

John nasceu John Lawrence Fifield.

Depois que Fletcher Markle, segundo marido de Mercedes, o adotou, passou a ser conhecido como John Markle. 


2. ELE TINHA DOUTORADO EM ECONOMIA

John possuía Ph.D. em Economia e havia construído uma carreira profissional no setor financeiro antes da tragédia. 


3. A MÃE ERA VENCEDORA DO OSCAR

Mercedes havia conquistado o Oscar por All the King's Men, muito antes de ser associada ao terror de O Exorcista. 


4. A MÁSCARA ERA UMA MÁSCARA DE HALLOWEEN

Registros policiais e jornalísticos descrevem a peça como uma máscara de borracha/Halloween com aparência de rosto de um homem idoso. 

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“Representação visual do tipo de máscara descrita pela polícia no caso John Markle. A imagem não deve ser apresentada como fotografia da evidência original.”


5. MERCEDES HAVIA ENTREGADO DINHEIRO AO FILHO PARA ADMINISTRAR

Segundo os registros biográficos, Mercedes confiou aproximadamente US$ 604 mil a John para administrar.

Posteriormente, a investigação descobriu as irregularidades envolvendo as contas. 


6. JOHN ASSUMIU A RESPONSABILIDADE PELAS FRAUDES

Na carta encontrada após sua morte, John escreveu que sua mãe era inocente e afirmou que ele era responsável pelas operações financeiras irregulares. 


7. EXISTIAM VÁRIOS DOCUMENTOS NO LOCAL

Além da carta, investigadores encontraram anotações, documentos financeiros e outros materiais relacionados à vida de John.


8. O CASO FOI DOCUMENTADO PELA TELEVISÃO LOCAL

Os arquivos da KATV preservam referências a reportagens produzidas em dezembro de 1987 sobre a investigação, a máscara e a divulgação do relatório policial. 


UMA HISTÓRIA SOBRE DINHEIRO, SEGREDOS E UMA FAMÍLIA DESTRUÍDA

O caso John Markle permanece particularmente perturbador porque não existe apenas um elemento para explicar sua repercussão.

Há a carreira de Mercedes McCambridge.

Há O Exorcista.

Há a fama associada à voz de Pazuzu.

Há o filho que construiu uma carreira acadêmica e financeira.

Há o esquema descoberto em 1987.

Há a demissão.

Há a carta.

Há a máscara.

E, acima de tudo, há uma família que não teve qualquer possibilidade de escapar da decisão tomada por uma única pessoa.

Os documentos do caso permitem reconstruir parte da sequência dos acontecimentos, mas não existe uma explicação simples capaz de transformar toda aquela tragédia em uma única causa.

A crise financeira aparece claramente nos registros. O ressentimento de John em relação à mãe também aparece em sua carta. Mas essas são peças de uma história maior — e não uma justificativa para os assassinatos.


O ECO DE UMA HISTÓRIA QUE COMEÇOU NO CINEMA E TERMINOU NA VIDA REAL

Mercedes McCambridge morreu muitos anos depois, mas sua voz permaneceu registrada na história do cinema.

A voz que em 1973 representou uma presença demoníaca em O Exorcista acabou sendo associada, décadas depois, a uma das histórias familiares mais incomuns dos arquivos criminais norte-americanos.

É uma daquelas histórias em que a realidade parece ter criado uma coincidência tão estranha que poderia facilmente ser confundida com um roteiro de ficção.

Mas não era.

Era Little Rock, novembro de 1987.

Era John Markle.

Era Christine.

Eram Amy e Suzanne.

E era Mercedes McCambridge, a atriz por trás da voz de Pazuzu, diante de uma tragédia que nenhum roteiro de terror poderia tornar menos dolorosa.


ARQUIVO DO CASO

Nome: John Lawrence Markle
Nome de nascimento: John Lawrence Fifield
Nascimento: 25 de dezembro de 1941
Local: Little Rock, Arkansas, EUA
Data da tragédia: 16 de novembro de 1987
Vítimas: Christine Markle, Amy Markle e Suzanne Markle
Autor: John Markle
Desfecho: suicídio após os assassinatos
Mãe: Mercedes McCambridge
Profissão: especialista/negociador do setor financeiro
Formação: Ph.D. em Economia
Empresa: Stephens Inc.
Elemento peculiar encontrado na cena: máscara de borracha
Ligação cinematográfica: Mercedes McCambridge, voz de Pazuzu em O Exorcista

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